O que arde cura
Faz tanto tempo que a bagagem ficou pela estação, que já nem me lembro de como era viver com tanto peso sobre os ombros. Isso para falar só dos acontecimentos últimos, pois a história inteira é digna de pesar. Como dizem os antigos: “começa errada, termina errada”.
Devolvi suas roupas? Faltou alguma coisa? Depositei o dinheiro das prestações daquela viagem na sua conta. A assinatura dos DVD`s, tudo certo com o cancelamento? Seus CD`s eu distribuí entre os amigos, mas 2 ou 3 ainda estão espalhados pelo meu carro. Tudo o que me lembrava você: livros, suas dedicatórias afetuosas, seu amor provisório, os chaveiros para minha coleção, tudo foi devidamente embalado e jogado para o fundo do armário, até que eu decida melhor destino.
A escova de dentes, ali parada, amontoando bactérias e me lembrando as manhãs mais tristes que tive, foi para o lixo. Pesadelos? Passaram ou são muito poucos agora. Já consigo dormir a noite inteira sem me assombrar com os fantasmas das suas ameaças ou do seu egoísmo.
Sabe aquela coceira na pele “de gênese emocional”, conforme soubemos? Nunca mais deu o ar da graça por aqui, desde que tudo mudou. Seu mau humor já não enfraquece a minha alegria. Não espero mais horas a fio por você. Não preciso administrar suas ausências e suas pequenas falhas diárias que, reunidas, me tiravam a fé no que havia de bom.
Hoje me lembro de tudo o que eu esperei, em contraste com o que, de fato, tive.
Causa-me espanto lembrar que ultrapassei todos os meus limites de resistência, sempre esperando por um afeto que nunca chegou. Pressentindo atitudes que se repetiriam. Vendo minhas feridas abertas não cicatrizarem, mas, pelo contrário, serem sistematicamente alargadas todos os dias.
Hoje, as coisas mudaram por aqui. A convicção de que nada de tão triste pode se repetir se converte em força para nunca mais olhar pra trás. Rejeito todas as dores que me foram impostas, sem remorso. O passado que você nunca quis, verdadeiramente, deixar pra trás; os fatos que insistiu em manter, ignorando o que me causavam, agora só pertencem a você. Se te fazem feliz, aproveite-os. Acredite, nada disso me interessa atualmente.
O tempo é um bálsamo, como gosto de entoar para mim mesma, quase como um mantra.
Os dias, curiosamente, estão mais claros. As noites, mais bem dormidas.
Nada do que passou faz falta no caminho novo que construí. Caminho apertado, diga-se de passagem, no qual seu lugar ao meu lado não existe mais.
Nessa longa estrada da vida tenho me deparado essencialmente com 3 tipos de homem: os neutros, os afobados (fingidos) e os medrosos.